Tradição centenária ganha destaque na Festa do Peão de Barretos com Concurso da Queima do Alho

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Fotográfo: Andre Monteiro

Muito antes dos grandes shows e das montarias que transformaram Barretos na maior festa sertaneja da América Latina, uma tradição já reunia os peões que cruzavam o interior do Brasil conduzindo boiadas: a Queima do Alho. Símbolo da cultura tropeira, a culinária típica das antigas comitivas voltará a ocupar lugar de destaque durante a 71ª Festa do Peão de Barretos, que será realizada entre os dias 20 e 30 de agosto.

O tradicional Concurso da Queima do Alho acontece no dia 23 de agosto, no Rancho Ponto de Pouso, reunindo 20 comitivas dos estados de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná e Minas Gerais. Já no dia 30, será realizada a seletiva destinada às comitivas iniciantes, que definirá duas vagas para a edição de 2027.

Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, por meio da Lei Federal nº 13.364/2016, a Queima do Alho preserva receitas, utensílios e costumes que marcaram a rotina dos antigos boiadeiros. Os pratos são preparados da mesma forma que eram feitos durante as longas viagens pelas estradas de terra, utilizando fogo de chão, panelas de alumínio, chapas, lenha e as tradicionais bruacas de couro, usadas para transportar mantimentos.

Entre as receitas que encantam visitantes e jurados estão o arroz carreteiro, feijão gordo, churrasco e a paçoca de carne seca, preparados sem qualquer equipamento moderno.

Segundo o coordenador do Concurso da Queima do Alho, João Paulo Martins, preservar a autenticidade é uma das principais preocupações da organização.

“O fogo precisa ser de chão, a lenha é o único combustível permitido e todos os utensílios devem seguir os padrões da época. O objetivo é manter viva a essência da culinária das antigas comitivas”, explica.

Histórias que atravessam gerações

A tradição também é mantida por famílias que participam da competição há décadas.

Um dos maiores exemplos é a Comitiva Antônio Ângelo, considerada a mais antiga em atividade na Festa do Peão. Aos 85 anos, Dalva Aparecida Utuari segue à frente do grupo iniciado por seu pai, Antônio Ângelo de Oliveira Sobrinho, um dos pioneiros da modalidade em Barretos.

Dalva participa da festa desde 1956 e conta que preservar esse legado é motivo de orgulho.

Hoje, o trabalho já envolve a terceira geração da família. O neto, Lucas Marques Salvino, também integra a comitiva e ajuda a manter viva uma tradição que atravessa décadas.

Outra história de dedicação é a da Comitiva Devotos do Tião Carreiro, de Riolândia (SP). Após anos de participação, o grupo conquistou, em 2025, seu primeiro título no concurso. Além da competição, seus integrantes mantêm outro costume das antigas marchas boiadeiras: percorrem cerca de 210 quilômetros a cavalo até Barretos, em uma viagem que dura aproximadamente seis dias.

Muito além da gastronomia

O Rancho Ponto de Pouso também será palco de diversas atrações ligadas à cultura sertaneja raiz. A programação inclui apresentações de moda de viola, catira, o tradicional Concurso de Berranteiros e shows musicais.

No dia 23 de agosto, sobem ao palco Ronaldo Viola Filho e Moysés Rico. Já no dia 30, durante a seletiva das comitivas iniciantes, a animação ficará por conta de Thacio e da dupla Divino & Donizete.

Os shows serão exclusivos para os visitantes que adquirirem ingressos para o Concurso da Queima do Alho ou para a seletiva das comitivas iniciantes.

Mais do que uma competição gastronômica, a Queima do Alho representa a preservação de um dos capítulos mais importantes da história do homem do campo. Em Barretos, o cheiro da lenha queimando, o sabor da comida feita no fogo de chão e as histórias passadas de geração em geração continuam mantendo viva a memória das antigas comitivas boiadeiras.