
Um grupo de cientistas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) apresentou uma nova estratégia para descontaminação ambiental utilizando microdescargas elétricas conhecidas como sparks (faíscas), geradas durante o processo de oxidação eletrolítica por plasma (PEO). Tradicionalmente aplicado para revestir metais como alumínio, magnésio e titânio, o método cria uma camada de óxido que aumenta a resistência do material. Agora, os pesquisadores demonstraram que as próprias faíscas — que atingem temperaturas superiores à da superfície do Sol — podem ser usadas para degradar poluentes presentes na água.
O estudo, liderado pelo professor Ernesto Chaves Pereira, do Departamento de Química da UFSCar, investigou a aplicação do plasma gerado no PEO na remediação de contaminantes farmacêuticos, considerados um dos principais desafios ambientais atuais. Medicamentos descartados de forma inadequada ou eliminados pelo organismo chegam aos rios e estações de tratamento, onde muitas vezes não são totalmente removidos. Mesmo em baixas concentrações, essas substâncias podem provocar impactos ecológicos, além de contribuir para o surgimento de bactérias resistentes.
Nos experimentos realizados no Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF), foram testados três fármacos: o antibiótico ofloxacino, o anti-inflamatório diclofenaco sódico e o antidepressivo fluoxetina, tanto isoladamente quanto em conjunto. Os resultados indicaram degradação significativa dos compostos após 60 minutos de exposição ao plasma, alcançando índices de destruição de até 93% no caso da fluoxetina. Diferentemente de métodos convencionais — como fotocatálise, adsorção e tratamentos biológicos — a técnica promoveu mineralização completa, convertendo as moléculas orgânicas em dióxido de carbono e água, sem formação de subprodutos tóxicos.
Além da eficiência, o método apresentou menor consumo energético em comparação com tecnologias tradicionais. Segundo o coordenador da pesquisa, o uso do plasma do PEO representa uma alternativa promissora por combinar alta capacidade de degradação com custo operacional reduzido. A equipe também já obteve resultados preliminares positivos na eliminação de bactérias e resíduos derivados de petróleo.
O estudo foi publicado no final de 2025 na revista científica Chemical Engineering Journal e conta com pedido de patente protocolado. A pesquisa envolveu docentes e estudantes da UFSCar, além de parcerias com a Unesp e a Unicentro, com financiamento da Fapesp, CNPq, Capes, Shell (CINE) e apoio da ANP. A expectativa é que a tecnologia avance para etapas de validação em escala ampliada, visando futura aplicação em sistemas reais de tratamento de água.
