Nova combinação de luz e antibióticos surge como esperança em estudo com a participação de pesquisador de São Carlos

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Nova combinação de luz e antibióticos surge como esperança em estudo com a participação de pesquisador de São Carlos

Um estudo internacional com a participação de cientista da USP de São Carlos aponta que terapia fotodinâmica associada a antibióticos pode ampliar a eficácia dos tratamentos e ajudar no combate à resistência bacteriana

A resistência bacteriana tornou-se uma das maiores ameaças à saúde pública do século XXI. Considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos principais desafios globais da saúde moderna, ela compromete tratamentos que durante décadas salvaram milhões de vidas e coloca em risco procedimentos rotineiros realizados diariamente em hospitais de todo o mundo.

Nesse cenário, uma pesquisa publicada na revista científica Pharmaceutics apresenta resultados promissores no combate à Klebsiella pneumoniae, uma das bactérias mais perigosas encontradas em ambientes hospitalares.

A Klebsiella pneumoniae é responsável por pneumonias graves, infecções urinárias, infecções da corrente sanguínea e diversas complicações em pacientes internados. O problema se torna ainda mais preocupante porque muitas cepas da bactéria desenvolveram resistência a múltiplos antibióticos, reduzindo drasticamente as opções terapêuticas disponíveis. Em alguns surtos hospitalares, a mortalidade associada às infecções por cepas resistentes pode atingir níveis alarmantes.

Os hospitais estão entre os ambientes mais vulneráveis à disseminação dessas bactérias. O fato do uso necessário de terapias com antibióticos no ambiente hospitalar, permite desenvolvimento de resistência de forma rápida.  Pacientes imunossuprimidos, pessoas submetidas a cirurgias, usuários de ventilação mecânica e indivíduos internados em unidades de terapia intensiva formam um grupo especialmente vulnerável. Quando uma bactéria multirresistente se estabelece em uma instituição de saúde, os custos aumentam, os períodos de internação se prolongam e os riscos de complicações e óbitos crescem significativamente.

Ameaça social e econômica

Além do impacto direto sobre os pacientes, a resistência antimicrobiana representa uma ameaça econômica e social de grandes proporções. Especialistas alertam que, caso o problema continue avançando no ritmo atual, procedimentos médicos considerados seguros hoje poderão tornar-se muito mais arriscados no futuro. Transplantes, tratamentos oncológicos, cirurgias cardíacas e até intervenções ortopédicas dependem da eficácia dos antibióticos para prevenir e controlar infecções.

Foi diante desse desafio que pesquisadores da Texas A&M University, nos Estados Unidos, e do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), conseguiram desenvolver uma estratégia inovadora baseada na combinação de antibióticos convencionais com terapia fotodinâmica antimicrobiana. A técnica utiliza substâncias fotossensibilizadoras que, quando expostas à luz, produzem moléculas altamente reativas capazes de danificar estruturas essenciais das bactérias, quebrando sua resistência ao antibiótico, ou tornando a ação do antibiótico amplificada.

No estudo, os cientistas empregaram dois fotossensibilizadores, azul de metileno e Photodithazine, em associação com três antibióticos amplamente utilizados na prática clínica: ciprofloxacino, gentamicina e ceftriaxona. Os experimentos demonstraram que a combinação dos tratamentos foi significativamente mais eficaz do que a utilização isolada dos medicamentos ou da terapia fotodinâmica.

Os resultados revelaram um efeito sinérgico importante. Em termos práticos, isso significa que a ação conjunta da luz, dos fotossensibilizadores e dos antibióticos produziu um efeito superior à simples soma dos tratamentos individuais. Em diversos testes, foi possível obter uma eliminação expressiva da bactéria utilizando doses menores de antibióticos, um aspecto particularmente relevante em uma época marcada pelo aumento da resistência microbiana.

Segundo os pesquisadores, a terapia fotodinâmica provoca danos simultâneos à membrana celular, às proteínas e ao material genético da bactéria. Essa agressão múltipla dificulta o desenvolvimento de mecanismos de resistência e facilita a entrada dos antibióticos na célula bacteriana. Dessa forma, medicamentos que isoladamente apresentam eficácia limitada podem recuperar parte de seu potencial terapêutico quando utilizados em conjunto com a nova abordagem.

Redução do consumo de antibióticos

Outro aspecto importante é que a técnica pode contribuir para reduzir o consumo de antibióticos. Quanto menor a exposição das bactérias a doses elevadas desses medicamentos, menor tende a ser a pressão seletiva que favorece o surgimento de novas cepas resistentes. Trata-se de uma estratégia que não apenas combate infecções atuais, mas também ajuda a preservar a eficácia dos antibióticos para as futuras gerações.

Embora os resultados tenham sido obtidos em condições laboratoriais, os autores consideram que a pesquisa abre uma nova perspectiva para o tratamento de infecções causadas por microrganismos multirresistentes. Os próximos passos incluem estudos em biofilmes bacterianos, modelos animais e futuras avaliações clínicas, etapas essenciais para confirmar a segurança e a eficácia da tecnologia em pacientes.

Para o pesquisador e docente do IFSC/USP, Prof. Dr. Vanderlei Salvador Bagnato, um dos autores correspondentes do artigo científico publicado na revista Pharmaceutics “Em um momento em que as superbactérias desafiam sistemas de saúde em todo o planeta, iniciativas como essa oferecem uma perspectiva animadora. Mais do que uma nova técnica terapêutica, a combinação entre terapia fotodinâmica e antibióticos pode representar uma importante ferramenta para proteger hospitais, salvar vidas e enfrentar uma das maiores ameaças sanitárias da atualidade: a resistência antimicrobiana”, pontua o cientista. Uma linha nova de pesquisa que esta sendo denominada de Foto-antibiótico terapia, que pelos diversos trabalhos do grupo pode ser uma opção importante no combate as infecções resistentes aos antibióticos.

Esta pesquisa contou com os apoios do Cancer Prevention and Research Institute of Texas (USA), Governor’s University Research Initiative (GURI), Chancellor’s Research Initiative (CRI), FAPESP, CNPq e Embrapii.

Confira no link o artigo original publicado na revista Pharmaceuticshttps://www.mdpi.com/1999-4923/18/5/587