A presença de mulheres na pesquisa em Computação e Inteligência Artificial (IA) ganhou destaque durante a 1ª Escola de Processamento de Linguagem Natural (PLN), realizada entre os dias 11 e 13 de agosto, no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. O evento reuniu cerca de 120 estudantes e profissionais.
O PLN é uma área da Computação dedicada ao desenvolvimento de tecnologias capazes de interpretar e produzir linguagem humana. É utilizada em ferramentas como tradutores automáticos, assistentes virtuais, sistemas de reconhecimento de voz e aplicações de inteligência artificial generativa, como os chatbots.
Entre as pesquisadoras que atuam na área está Helena Caseli, professora do Departamento de Computação da UFSCar desde 2008 e uma das coordenadoras da Escola. Sua pesquisa envolve tradução automática e aprendizado multimodal. Ela também integra a cátedra “Computação Inteligente Centrada no Humano”, vinculada ao Instituto de Estudos Avançados e Estratégicos da universidade.
Helena é uma das fundadoras do Brasileiras em Processamento de Linguagem Natural (BPLN), grupo criado durante a pandemia de Covid-19 com o objetivo de aproximar mulheres brasileiras que trabalham ou têm interesse na área. Cinco anos após sua criação, o coletivo reúne mais de 300 participantes no Brasil e no exterior.
A iniciativa surgiu após Helena ser procurada pela pesquisadora Brielen Madureira, que questionou a existência de um grupo voltado a mulheres brasileiras do PLN. A partir da conversa, as duas deram início ao projeto.
Pesquisa e formação
A trajetória de outras pesquisadoras também passa por São Carlos e pelo Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC), criado em 1993 e considerado um dos grupos pioneiros de pesquisa em PLN no país.
Uma das referências é Maria das Graças Volpe Nunes, conhecida como Graça Nunes. Formada em Ciência da Computação pela UFSCar, ela participou da criação do NILC e permanece ligada às pesquisas mesmo após sua aposentadoria como professora do ICMC.
O núcleo foi responsável pelo desenvolvimento de trabalhos pioneiros em processamento de texto, entre eles um dos primeiros revisores gramaticais voltados ao português brasileiro, posteriormente licenciado pela Microsoft para utilização no Word.
Graça também orientou pesquisadoras que hoje seguem atuando na área. Entre elas está Eloize Rossi Marques Seno, professora do IFSP de São Carlos. Sua pesquisa envolve sumarização e geração automática de textos, paráfrases, detecção de discurso de ódio e análise de sentimentos.
Outra pesquisadora formada nessa trajetória é Amanda Pontes Rassi, que veio da Linguística para a Computação. Doutora pela UFSCar, ela trabalhou no Google e na Apple em projetos relacionados a assistentes virtuais, reconhecimento e síntese de voz. Atualmente, atua na área de educação e mantém participação em atividades de pesquisa por meio do BPLN.
Também se destaca Roseli Aparecida Francelin Romero, professora do ICMC e pesquisadora em Inteligência Artificial e robótica. Com formação em Matemática e Computação, ela desenvolveu pesquisas em redes neurais artificiais e robótica social e coordena o Laboratório de Aprendizado de Robôs.
Incentivo à participação feminina
A experiência dessas pesquisadoras evidencia diferentes caminhos para a atuação feminina na Computação, desde a Linguística até áreas como IA, robótica e aprendizado de máquina.
A criação do BPLN busca ampliar essa participação ao oferecer oportunidades de contato, colaboração e troca de experiências entre estudantes, pesquisadoras e profissionais. A proposta também é aproximar mulheres em diferentes etapas da carreira e criar redes de apoio em uma área ainda marcada pela predominância masculina.
A 1ª Escola de PLN foi organizada justamente com esse objetivo de integração. A programação abordou pesquisas e aplicações relacionadas ao processamento da língua falada no Brasil, com atenção às características do português brasileiro.
A expectativa é que a Escola seja realizada anualmente, de forma itinerante, em diferentes regiões do país. Em São Carlos, a iniciativa também colocou em evidência a contribuição de pesquisadoras que há décadas participam da construção da pesquisa brasileira em Computação, PLN e Inteligência Artificial.
