Neste Dia das Mães, enquanto vitrines exibem flores, perfumes e mensagens prontas sobre amor incondicional, uma realidade silenciosa continua pulsando dentro de milhares de casas em São Carlos: a rotina das mães atípicas. Mulheres que transformaram a própria vida em luta diária por dignidade, inclusão e sobrevivência emocional.
O prefeito Netto Donato sancionou a lei que institui a Semana Municipal da Maternidade Atípica no calendário oficial da cidade, lei de autoria do vereador Djalma Nery. O gesto é importante. Reconhece uma pauta que por anos permaneceu invisível. Mas a pergunta inevitável é: o reconhecimento simbólico virá acompanhado de políticas públicas reais?
Por trás dos discursos, existem mães aguardando anos por um diagnóstico para os filhos. Há famílias enfrentando filas gigantescas para terapias e tratamentos especializados. Só em São Carlos, centenas de crianças ainda esperam atendimento. Na educação, muitas famílias travam batalhas diárias por professores de apoio, materiais adaptados e planos individualizados de ensino.
A maternidade atípica também expõe um drama social pouco debatido: a solidão. Dados e relatos de entidades apontam que muitos pais abandonam o lar após o diagnóstico da criança. Sobram mães solo, obrigadas a abandonar empregos para buscar consultas, terapias e rotinas médicas exaustivas. Algumas vivem integralmente para os filhos e esquecem da própria saúde mental.
Enquanto isso, entidades que realizam diagnósticos e atendimentos seguem sobrecarregadas e dependentes de maior apoio do poder público. Falta estrutura, investimento e expansão da rede de atendimento. Não basta apenas criar campanhas emocionais uma vez por ano. É necessário garantir acesso rápido à saúde, inclusão escolar eficiente, suporte psicológico e até incentivo econômico para que essas mães possam empreender e gerar renda com flexibilidade.
A nova lei pode ser um começo. Mas talvez o maior desafio seja fazer a sociedade entender que maternidade atípica não precisa de pena, precisa de suporte. Porque nenhuma mãe deveria lutar sozinha para garantir aquilo que já deveria ser um direito básico do filho: cuidado, acolhimento e dignidade.
