“As pessoas do povo não sabem falar e nem têm o que dizer.” A frase, que representa um antigo consenso construído historicamente no Brasil, é o ponto de partida do livro Palavra operária, palavra oprimida, obra que propõe uma reflexão profunda sobre a exclusão da fala popular e o preconceito linguístico presente na sociedade brasileira.
Escrito por Evandro Paschoalino e Carlos Piovezani, o livro analisa como a imprensa paulista tratou as trabalhadoras e os trabalhadores durante a histórica Greve Geral de 1917, em São Paulo.
Naquele período, operárias e operários se rebelaram contra a exploração nas fábricas, reivindicando direitos e melhores condições de vida. Apesar das assembleias, manifestações e pronunciamentos realizados pelos grevistas, a voz do povo trabalhador foi constantemente deslegitimada, perseguida e silenciada.
A obra mostra como jornais da época, tanto os alinhados às elites quanto parte da imprensa alternativa, falavam pelos trabalhadores, mas raramente davam espaço para que eles próprios se expressassem. Segundo os autores, a palavra operária era tratada como algo sem valor, sendo frequentemente menosprezada e excluída do debate público.
No texto da contracapa, o linguista Marcos Bagno destaca que o livro evidencia como a imprensa atuava como porta-voz dos interesses das classes dominantes. Ele aponta que, mesmo quando havia apoio ao movimento operário, a fala das trabalhadoras e dos trabalhadores seguia invisibilizada. Para Bagno, a realidade vivida em 1917 guarda fortes semelhanças com os dias atuais, já que preconceitos sociais, linguísticos e o ódio de classe continuam presentes na sociedade brasileira.
Mais do que revisitar um importante episódio histórico, Palavra operária, palavra oprimida busca provocar uma reflexão sobre quem tem direito à fala no Brasil e reforça a ideia de que todo ser humano sabe falar, pensa, produz conhecimento e tem algo importante a dizer.
