A estreia da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro, na noite deste domingo (15), foi marcada por forte repercussão política. A escola levou para a avenida um enredo sobre a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), destacando sua origem como operário, sua atuação como presidente e embates políticos ao longo da carreira.
O desfile, que começou às 22h13 e durou 79 minutos — dentro do limite permitido — chamou atenção não apenas pelo ineditismo de homenagear um presidente em exercício, mas também pelo tom crítico adotado em algumas alas e alegorias.
Uma das alas mais comentadas representou grupos classificados pela escola como “neoconservadores” por meio de fantasias de latas de conserva. Entre os retratados estavam representantes do agronegócio, defensores da ditadura militar, mulheres de classe alta e evangélicos. A representação gerou críticas, especialmente nas redes sociais, com acusações de desrespeito e generalização ao colocar evangélicos como “enlatados”.
Outro ponto de debate foi o samba-enredo, que trouxe referências diretas ao Partido dos Trabalhadores. A letra reproduziu gritos de militância como “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula” e mencionou, em duas passagens, o número de urna da legenda, o que levantou questionamentos sobre possível propaganda eleitoral antecipada.
A escola também incluiu provocações ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em uma das alegorias, ele foi representado como um palhaço vestido com traje listrado, em referência a um presidiário, o que intensificou o debate político em torno da apresentação.
A escolha do tema motivou reações de parlamentares e partidos contrários ao presidente. O partido Novo tentou impedir o repasse de R$ 1 milhão da Embratur à escola por meio do Tribunal de Contas da União (TCU), mas o pedido foi rejeitado. Outras ações judiciais também não prosperaram.
Lula acompanhou o desfile no camarote da Prefeitura do Rio e chegou a descer à avenida. Já a primeira-dama, Janja, que havia sido anunciada como destaque em um dos carros alegóricos, optou por não participar para evitar interpretações de campanha antecipada.
A apresentação da Acadêmicos de Niterói, fundada em 2018 e recém-promovida ao Grupo Especial após vencer a Série Ouro, transformou a Sapucaí em palco de debate político, ampliando a discussão sobre os limites entre manifestação cultural e posicionamento partidário no Carnaval.
