Clima nos países exportadores influencia inflação de alimentos

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(Foto: Acervo pessoal)

Quando o preço do alimento sobe por causa de uma seca na Argentina, de uma onda de frio nos Estados Unidos ou de uma quebra de safra em qualquer grande produtor, surge a velha cobrança: o que o Banco Central vai fazer?

Uma pesquisa que acaba de ganhar espaço no debate internacional ajuda a responder. O trabalho, desenvolvido por pesquisadores ligados à UFSCar, Unifesp, Hochschule Rhein-Waal e Unioeste, mostra que o clima dos países que fornecem alimentos ao Brasil e a outras economias pode pesar mais sobre os preços do que o clima dentro do próprio país.

E há uma informação especialmente importante: o impacto não aparece sempre na mesma hora. O calor pode ser rapidamente incorporado aos preços. Os efeitos do frio tendem a surgir alguns meses depois. Já uma seca pode levar cerca de um ano para percorrer toda a cadeia produtiva e chegar ao consumidor.

Isso muda a conversa sobre inflação.

Porque inflação de alimentos não é necessariamente uma inflação que se combate aumentando juros. Se o problema está numa safra perdida do outro lado do mundo, juros altos não fazem chover. Não plantam milho, não recuperam uma lavoura e não colocam alimento no caminhão.

O estudo não encontrou efeitos relevantes desses choques sobre o núcleo da inflação, o índice geral de preços ou, em média, sobre os juros. É justamente aí que está a grande lição: banco central precisa distinguir uma inflação persistente de um choque temporário de oferta.

Isso não significa ignorar o preço dos alimentos. Significa entender a origem do problema antes de escolher o remédio.

Combater toda alta de preço com juros é como usar um martelo para consertar qualquer coisa: às vezes funciona, mas muitas vezes o problema exige outra ferramenta.

Num mundo em que clima e comércio estão cada vez mais conectados, entender essa diferença será fundamental. Até porque, quando a seca acontece lá fora, quem paga a conta pode estar aqui dentro.