Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Centro Infantil de Investigações Hematológicas Dr. Domingos A. Boldrini desenvolveram uma tecnologia baseada em anticorpos monoclonais capazes de reconhecer o receptor IL-7Rα, uma proteína relacionada à sobrevivência e à multiplicação de células de leucemia. O trabalho está em fase pré-clínica e ainda não está disponível como tratamento para pacientes.
A pesquisa tem como foco a leucemia linfoblástica aguda (LLA), o câncer mais frequente na infância. Embora os tratamentos atuais permitam a cura de grande parte dos pacientes, recaídas e resistência à terapia continuam sendo desafios importantes.
O receptor IL-7Rα chamou a atenção dos cientistas porque determinadas mutações podem fazer com que ele permaneça permanentemente ativado. Na prática, isso mantém sinais que favorecem a sobrevivência e a proliferação das células, contribuindo para o desenvolvimento da leucemia. Estudos anteriores do grupo identificaram essas alterações em aproximadamente 10% dos casos de LLA do tipo T. A pesquisa mais recente também aponta mutações no receptor em cerca de 2% dos casos do tipo B.
Como funcionam os anticorpos
A estratégia consiste em produzir anticorpos que reconhecem especificamente o IL-7Rα presente na superfície das células. Ao se ligar ao receptor, o anticorpo pode interferir nos sinais responsáveis pela sobrevivência e multiplicação celular e ainda facilitar o reconhecimento da célula leucêmica pelo sistema imunológico.
Nos testes pré-clínicos, realizados com modelos animais que receberam células de pacientes, os anticorpos demonstraram capacidade de retardar a progressão da doença. Os resultados, porém, não significam que a terapia já esteja comprovada para uso em seres humanos. A própria equipe destaca a necessidade de novas etapas de pesquisa, inclusive estudos que avaliem a combinação dos anticorpos com tratamentos já utilizados, como a quimioterapia.
O projeto também avançou na adaptação dos anticorpos para um possível uso futuro em humanos. Além da versão originalmente produzida em camundongos, foram desenvolvidas versões quimérica e humanizada, etapas importantes para reduzir o risco de uma reação do organismo contra o próprio medicamento.
Tecnologia brasileira em busca de desenvolvimento
A tecnologia foi protegida por pedido de patente e está disponível no portfólio da Inova Unicamp para eventual licenciamento. O objetivo é encontrar parceiros capazes de apoiar as próximas fases, incluindo a produção em maior escala e a adequação aos padrões necessários antes de possíveis estudos clínicos.
Caso as etapas futuras confirmem a segurança e a eficácia da estratégia, os anticorpos poderão representar uma nova possibilidade de tratamento para determinados pacientes, especialmente aqueles que apresentam resistência ou recaída.
Outro aspecto destacado pelos pesquisadores é a possibilidade de ampliar a capacidade brasileira de produzir medicamentos biológicos, reduzindo a dependência de tecnologias e etapas de fabricação realizadas no exterior.
O trabalho é resultado de cerca de uma década de colaboração entre pesquisadores da Unicamp e do Boldrini e integra uma linha de pesquisa dedicada à busca de novos alvos e tratamentos para a leucemia infantil.
Importante: apesar dos resultados promissores em laboratório e em modelos pré-clínicos, os anticorpos ainda não são um tratamento aprovado para pacientes com leucemia. Antes de qualquer utilização clínica, a tecnologia precisa passar por etapas adicionais de desenvolvimento, avaliação de segurança e, posteriormente, estudos em humanos.
